Uma semana após a divulgação dos resultados parciais da última Avaliação Quadrienal (2021-2024), no dia 12 de janeiro pela plataforma Sucupira, inúmeras revistas e instituições celebraram os avanços obtidos no estrato Qualis. Mas os critérios utilizados nesta avaliação já não serão mais válidos para o próximo quadriênio (2025-2028).
O modelo tradicional de classificação de periódicos (Qualis Periódicos), que dividiu as revistas em 8 estratos baseados em métricas bibliométricas, será substituído por um sistema que classifica artigos individuais. Esta mudança reflete uma evolução conceitual importante: em vez de avaliar "em qual periódico foi publicado?", o novo modelo pergunta "qual é a qualidade e o impacto deste artigo específico?".
O sistema atual (até 2024)
O sistema atual utiliza três principais bases de dados bibliométricas:
- Scopus/Elsevier: CiteScore
- Web of Science/Clarivate (JCR): Fator de Impacto (Journal Impact Factor)
- Google Scholar: h5-index (para periódicos não indexados nas bases principais)
A CAPES seleciona o maior percentil obtido pelo periódico em qualquer uma das bases para definir sua classificação.
A classificação Qualis Periódicos baseia-se em um método estatístico de estratificação:
- O periódico é posicionado percentualmente em relação a todos os outros periódicos na sua categoria temática internacional (exemplo: uma revista pode estar no 85º percentil em sua área)
- Este percentil é mapeado em 8 estratos através de divisões iguais de 12,5%:
| Estrato | Intervalo de Percentil | Significado |
|---|---|---|
| A1 | 87,5–100% | Impacto mais alto |
| A2 | 75–87,5% | Impacto alto |
| A3 | 62,5–75% | Impacto acima da média |
| A4 | 50–62,5% | Impacto acima da mediana |
| B1 | 37,5–50% | Impacto próximo à mediana |
| B2 | 25–37,5% | Impacto abaixo da mediana |
| B3 | 12,5–25% | Impacto baixo |
| B4 | 0–12,5% | Impacto muito baixo |
| C | – | Sem indicadores ou práticas editoriais inadequadas |
A metodologia tradicional aplicava três princípios fundamentais:
- Classificação única: cada periódico recebia uma única classificação, independentemente de em quantas áreas de avaliação era citado;
- Classificação por áreas-mães: os periódicos eram alocados à área em que tiveram maior número de publicações durante o período de avaliação;
- Limites percentuais por área: havia restrições como máximo de 26% de periódicos nos estratos A1+A2, evitando inflação.
A diferença entre periódicos sem fator de impacto era resolvida pela indexação em bases como Scopus, Web of Science ou Google Scholar. Periódicos sem qualquer indicador bibliométrico eram automaticamente classificados como C.
O novo sistema de classificação de artigos (2025-2028)
O passo mais radical é que periódicos não serão mais classificados. A CAPES reconheceu uma limitação crítica do modelo anterior: um periódico de alta qualidade pode conter um artigo de impacto limitado, e vice-versa. O novo modelo permite que três artigos publicados na mesma revista recebam classificações distintas.
Esta mudança foi aprovada em outubro de 2024 pelo Conselho Técnico-Científico da Educação Superior (CTC-ES) e começará a valer no quadriênio 2025-2028, com avaliação final em 2029.
Flexibilidade em 3 procedimentos
A CAPES definiu três procedimentos para classificação de artigos, oferecendo às 50 áreas de avaliação total autonomia para escolher um, dois ou os três combinados:
Procedimento 1: Indicadores Bibliométricos do Periódico
Este procedimento preserva elementos do Qualis tradicional, mas redirecionando a classificação para o artigo individual. A metodologia é semelhante: utiliza percentis de CiteScore (Scopus) ou Fator de Impacto (JCR) do periódico, aplicando o mesmo sistema de estratificação em 8 níveis (A1 a A8).
A vantagem principal é a continuidade metodológica com diretrizes bem estabelecidas. A desvantagem é que um artigo excepcional em revista de impacto limitado ainda não receberia classificação elevada.
Procedimento 2: Indicadores Híbridos (Periódico + Artigo)
Este é o procedimento mais inovador. Combina:
- Indicadores do periódico: CiteScore, Fator de Impacto;
- Indicadores diretos do artigo: número de citações recebidas, FWCI (Field-Weighted Citation Impact, que normaliza citações por área), downloads;
- Altimetria: menções em redes sociais, plataformas acadêmicas;
- Critérios qualitativos do periódico: indexação na SciELO, acesso aberto, conformidade com boas práticas editoriais.
O ponto inicial é a classificação pelo Procedimento 1, que pode ser ajustada para cima conforme os critérios adicionais. Uma diretriz comum a todas as áreas prioriza periódicos indexados na SciELO, reconhecendo a importância dos periódicos nacionais de qualidade.
Esta abordagem endereça uma crítica histórica ao Qualis: sua tendência de desfavorecer revistas brasileiras de excelência. Agora, um artigo publicado em periódico SciELO bem indexado pode receber incremento na classificação.
Procedimento 3: Análise Qualitativa Direta por Especialistas
O terceiro procedimento é fundamentalmente diferente. Não utiliza métricas, mas avaliação por pares especializada em profundidade:
- Aplicado a artigos selecionados como "destaques" pela Plataforma Sucupira;
- Especialistas da área avaliam: pertinência temática, avanço conceitual original, contribuição científica para o campo;
- Escala de conceitos: Muito Bom (MB=8), Bom (B=4), Regular (R=2), Fraco (F=1), Insuficiente (I=0).
Este procedimento oferece reconhecimento para trabalhos genuinamente inovadores, independentemente das métricas de citação (que geralmente levam anos para se estabelecerem para pesquisas recentes).
Escalas de Classificação
Para maior clareza, o sistema resulta em dois tipos de saída:
- Procedimentos 1 e 2: 8 estratos (A1, A2, A3, A4, A5, A6, A7, A8)
- Procedimento 3: 5 conceitos em escala (Muito Bom, Bom, Regular, Fraco, Insuficiente)
Note que a mudança de 8 estratos A-B (A1-4, B1-4) para 8 estratos A mantém a quantidade de níveis, mas renomeia de "B" para A5-A8.
Mudanças significativas no ecossistema da pesquisa
Na perspectiva da CAPES, o novo sistema introduz uma série de aprimoramentos para o ecossistema de pesquisa. A precisão da avaliação tende a aumentar, pois artigos diferentes publicados no mesmo periódico passam a receber classificações distintas, de acordo com o desempenho individual de cada trabalho.
Ao mesmo tempo, a mudança promete reduzir distorções associadas ao uso exclusivo do fator de impacto, uma vez que periódicos com métricas inflacionadas deixam de determinar, por si sós, o valor atribuído a pesquisas de qualidade em revistas emergentes. Nesse cenário, há um reconhecimento mais claro da excelência nacional, já que periódicos como a SciELO ganham maior relevância nos processos avaliativos, contribuindo para valorizar a produção científica brasileira.
Além disso, o modelo abre espaço para uma flexibilidade temática maior, permitindo que diferentes áreas enfatizem critérios diversos, como maior peso para análise qualitativa em alguns campos e maior foco em métricas em outros.
Por fim, o sistema se adapta melhor ao ecossistema científico contemporâneo, incorporando preprints, repositórios de acesso aberto e formas inovadoras de divulgação científica como elementos legítimos no processo de avaliação.
Críticas e desafios do novo modelo
Apesar dos avanços projetados, especialistas apontam riscos e dificuldades importantes. Um dos pontos mais sensíveis é a subjetividade associada ao Procedimento 3, em que a avaliação qualitativa, ainda que aprofundada, pode introduzir vieses pessoais ou institucionais na classificação dos artigos. Soma-se a isso a possibilidade de manipulação de métricas no âmbito do Procedimento 2, já que o foco em citações pode incentivar práticas como autocitações excessivas ou acordos de citação recíproca entre grupos de pesquisa.
A transição para o novo sistema também se mostra complexa: a comunidade científica precisará enfrentar uma nova curva de aprendizado, enquanto programas de pós-graduação terão de revisar seus critérios internos de avaliação e progressão.
Como se preparar para o novo modelo
No que se refere às ações práticas, instituições e periódicos em transição podem se apoiar em algumas recomendações. Para editores de periódicos nacionais, torna-se especialmente importante buscar a indexação na SciELO, caso isso ainda não tenha sido alcançado, uma vez que o Procedimento 2 confere reconhecimento explícito a esse canal e tende a valorizá-lo na avaliação de artigos.
Programas de pós-graduação, por sua vez, precisam acompanhar de perto a divulgação dos Documentos de Área, a fim de alinhar seus critérios internos de pontuação e seus instrumentos de gestão da produção intelectual com as novas diretrizes.
Para os pesquisadores, a principal mudança de mentalidade é não presumir que a publicação em periódicos de alto fator de impacto será, por si só, garantia de pontuação máxima, já que o impacto individual de cada artigo passa a desempenhar papel central. Finalmente, gestores institucionais devem preparar equipes para lidar com a maior complexidade avaliativa, promovendo capacitações e revisando políticas internas de progressão na carreira acadêmica à luz das novas regras.
Tabela comparativa
| Aspecto | Sistema Antigo (até 2024) | Sistema Novo (a partir de 2025) |
|---|---|---|
| Foco principal | Classificação do periódico | Classificação individual de artigos |
| Base de dados | Scopus (CiteScore), JCR (Fator de Impacto), Google Scholar (h5) | Mesmas bases + indicadores diretos dos artigos (citações) |
| Estratificação | 8 estratos (A1, A2, A3, A4, B1, B2, B3, B4) + C | Proc. 1 e 2: 8 estratos (A1-A8); Proc. 3: 5 conceitos (MB, B, R, F, I) |
| Artigos na mesma revista | Todos recebem a mesma classificação | Podem ter classificações diferentes |
| Indicador principal | Percentil do periódico na categoria temática | Indicadores do periódico + indicadores do artigo + análise qualitativa |
| Análise qualitativa | Mínima (periódico) | Procedimento 3: análise detalhada por especialista |
| Autonomia das áreas | Liberdade com diretrizes comuns | Escolher 1 ou combinar os 3 procedimentos |
Conclusão
A transformação do Qualis Periódicos em um sistema de classificação de artigos representa uma evolução importante na avaliação da produção científica brasileira. Ao deslocar o foco do veículo de publicação para o mérito individual do trabalho, a CAPES busca alinhar-se a práticas internacionais e reconhecer a qualidade além das métricas tradicionais de impacto de periódico.
Porém, a transição introduz complexidade significativa. A flexibilidade oferecida às áreas, ao permitir a combinação de três procedimentos distintos, oferece oportunidade para calibragem específica de contexto, mas também cria uma fragmentação que pode dificultar comparações entre áreas. O sucesso desta reforma dependerá, em grande medida, da qualidade dos documentos orientadores e da capacidade das áreas de implementar os procedimentos com consistência e transparência.
Referências
- PPGEELT – Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica e Eletrônica, Universidade Federal de Uberlândia. Manual PPGEELT: como consultar o novo Qualis 2019 – Scopus e Clarivate [Internet]. Uberlândia (MG): PPGEELT, UFU; 2019. Disponível em: https://ppgeelt.feelt.ufu.br/sites/ppgeelt.feelt.ufu.br/files/media/document/manual_ppgeelt_como_consultar_o_novo_qualis_2019_scopus_e_clarivate.pdf
- PPGCMT – Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia de Materiais, Universidade Federal do Ceará. Credenciamento: calcular o Qualis base Scopus [Internet]. Fortaleza (CE): PPGCMT, UFC; 2021. Disponível em: https://ppgcmt.ufc.br/wp-content/uploads/2021/04/credenciamento-calcular-o-qualis-base-scopus.pdf
- PPG Biodiversidade – Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Conservação da Natureza, Universidade Federal de Juiz de Fora. Cálculo Qualis Único (CAPES) [Internet]. Juiz de Fora (MG): PPG Biodiversidade, UFJF; 2022. Disponível em: https://www2.ufjf.br/ppgbiodiversidade/wp-content/uploads/sites/117/2022/01/C%C3%A1lculo-Qualis-%C3%BAnico-CAPES.pdf
- BRASIL. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). CAPES adotará classificação de artigos na avaliação quadrienal [Internet]. Brasília: CAPES; 31 out 2024. Disponível em: https://www.gov.br/capes/pt-br/assuntos/noticias/capes-adotara-classificacao-de-artigos-na-avaliacao-quadrienal
- ABCD USP. Qualis-periódicos será substituído por classificação por artigos [Internet]. São Paulo: ABCD USP; Out 2024. Disponível em: https://www.abcd.usp.br/noticias/novo-qualis-periodicos-classificacao-por-artigos/
- ALMEIDA YS. Mudanças no Qualis: o que ninguém te contou [Internet]. Enfermagem Pesquisadora; 21 Nov 2025. Disponível em: https://enfermagempesquisadora.com.br/mudancas-no-qualis-o-que-ninguem-te-contou/
- CAPES e a nova avaliação da produção intelectual para a classificação de artigos científicos, ciclo 2025-2028 [Internet]. UEPB Arquivologia; 28 Mai 2025. Disponível em: https://arquivologiauepb.com.br/2025/capes-e-a-nova-avaliacao-da-producao-intelectual-para-a-classificacao-de-artigos-cientificos-ciclo-2025-2028/
- PROFIAP – Mestrado Profissional em Administração Pública. Novo sistema de classificação de artigos científicos – ÁREA 27 (2025-2028) [Internet]. 10 Jul 2025. Disponível em: https://profiap.org.br/classificacao-de-artigos-cientificos-area-27-2025-2028/
- Qualis Periódicos substituído: Capes motivo [Internet]. Revista Educação; 19 Dez 2024. Disponível em: https://revistaeducacao.com.br/2024/12/19/qualis-periodicos-substituido-capes-motivo/
Texto produzido com auxílio de Inteligência Artificial e revisado pelo autor.
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