A linha tênue entre crédito e responsabilidade na ciência fica evidente quando um artigo chega à etapa de autoria. Em meio a pressões por produtividade, colaborações multicêntricas e novas ferramentas digitais, não é raro que equipes se perguntem quem merece crédito, em que ordem e com quais deveres.

No artigo “Integridade na pesquisa: por que o crédito exige responsabilidade?”, publicado na semana passada, mostramos que a confiança do leitor depende de identificar claramente quem fez o quê e quem responde pelo quê. No artigo de hoje, trazemos as recomendações sobre papéis de autores e contribuição do International Committee of Medical Journal Editors - ICMJE (Comitê Internacional de Editores de Revistas Médicas, em tradução livre), que oferecem um excelente caminho para reduzir conflitos, garantir justiça e, principalmente, assegurar que quem assina possa responder pelo que foi publicado.

Por que autoria importa

Assinar um artigo não é apenas receber crédito acadêmico, social e até financeiro. É assumir responsabilidade e prestar contas por tudo o que foi publicado. Nessa perspectiva, a autoria precisa refletir contribuições intelectuais substanciais, em vez de favores, posição hierárquica ou participação de rotina. A clareza sobre quem fez o quê e quem responde pelo quê sustenta a confiança do leitor e a credibilidade da revista. Quem é incluído como autor recebe reconhecimento e deve assumir responsabilidade, aceitando o encargo de responder por questões de exatidão e integridade do trabalho.

A dimensão ética da autoria também envolve equidade. Editores são alertados para a prática de excluir pesquisadores locais de países de baixa e média renda quando os dados provêm desses contextos. A presença de autores locais agrega interpretação contextual, fortalece a justiça na colaboração e melhora as implicações práticas da pesquisa. A ausência injustificada desses pesquisadores deve levantar questionamentos editoriais e pode motivar a rejeição do manuscrito.

Outro ponto central é que a mera lista de nomes não comunica a natureza das contribuições. Por isso, muitos periódicos passaram a solicitar e publicar, ao menos em pesquisas originais, descrições das contribuições de cada participante. Políticas de contribuição, como a Taxonomia CRediT, reduzem ambiguidades ao tornar visível o trabalho efetivamente realizado, embora não definam, por si, quanta contribuição qualifica alguém como autor. É justamente para preencher essa lacuna que o ICMJE propõe critérios cumulativos de autoria, adotáveis por qualquer periódico, distinguindo com mais precisão quem deve assinar de quem deve ser reconhecido como colaborador.

Quem é autor segundo o ICMJE

O ICMJE propõe quatro critérios cumulativos. Para ser autor, o pesquisador deve:

  1. Contribuir substancialmente para a concepção ou o projeto da obra; ou para a aquisição, análise ou interpretação de dados para a obra; E
  2. Redigir o trabalho ou revisá-lo criticamente quanto ao conteúdo intelectual importante; E
  3. Aprovar a versão final a ser publicada; E
  4. Concordar em ser responsável por todos os aspectos do trabalho, garantindo que as questões relacionadas à precisão ou integridade de qualquer parte do trabalho sejam devidamente investigadas e resolvidas.

Quem assina precisa identificar que os coautores responderam por outras partes, além de confiar na integridade do grupo. Todos os listados devem cumprir os quatro critérios, e todos os que os cumprirem devem ser listados como autores.

Evite exclusões indevidas e decida cedo

As recomendações alertam para a exclusão de pesquisadores locais em estudos realizados em países de baixa e média renda, prática que prejudica a justiça e a interpretação contextual dos achados. A decisão sobre quem é autor deve ser construída pela própria equipe, preferencialmente desde o desenho do estudo, com revisões conforme o projeto evolui. Em caso de impasse, a investigação cabe às instituições onde o trabalho foi realizado, não ao editor.

Ordem de autoria e mudanças após submissão

A ordem de autoria é decisão coletiva dos autores, não do periódico. Pedidos de inclusão ou retirada de nomes após a submissão ou mesmo depois da publicação exigem uma justificativa formal e concordância por escrito de todos os autores listados e da pessoa a ser incluída ou excluída. Essa prática cria um rastro documental mínimo para proteger a integridade do registro e prevenir disputas posteriores.

O papel do autor de correspondência

Embora toda a equipe compartilhe responsabilidade, uma pessoa conduz a interlocução com o periódico. O autor de correspondência garante que os trâmites administrativos sejam cumpridos: do envio de aprovações éticas e registros de ensaios às declarações de conflitos de interesse. Ele precisa estar disponível durante a avaliação por pares e também após a publicação, para responder a críticas e providenciar dados ou informações adicionais se surgirem questionamentos. É recomendável que editores copiem a correspondência a todos os autores, reforçando transparência e alinhamento interno.

Grupos de autoria e consórcios

Em estudos de grandes colaborações, a regra é a mesma. O ideal é definir antes do início quem será autor e confirmar antes da submissão. Se o nome do grupo aparece na assinatura, o autor de correspondência deve nomear claramente os membros que respondem como autores e aqueles que atuam como colaboradores. Bases como a MEDLINE indexam como autores os nomes que constam na linha de autoria e, quando há nota explicativa, podem listar membros do grupo como autores ou colaboradores, conforme indicado.

Quem contribui, mas não assina

Contribuidores que não atendem a todos os quatro critérios não devem assinar, porém devem ser reconhecidos. Exemplos típicos, quando isolados, incluem obtenção de financiamento, supervisão geral de grupo, apoio administrativo, assistência de escrita, edição técnica, revisão de idioma e revisão de provas. O reconhecimento pode ser individual ou coletivo, sempre especificando a natureza da contribuição, por exemplo consultoria científica, coleta de dados, cuidado de pacientes ou suporte de redação. Como o reconhecimento pode ser interpretado como endosso, editores devem exigir que o autor de correspondência obtenha permissão por escrito de todos os reconhecidos.

IA não é autor e o uso precisa ser transparente

O ICMJE orienta que o uso de tecnologias assistidas por IA seja declarado no ato da submissão, descrevendo como foi utilizado, seja para assistência de escrita, coleta e análise de dados ou geração de figuras. Chatbots e modelos de linguagem não podem ser autores, já que não assumem responsabilidade por precisão, integridade e originalidade, requisitos centrais de autoria. Cabe aos humanos revisar, editar, checar originalidade e atribuir corretamente material citado, incluindo imagens. Se a IA tiver servido como apoio de escrita, o local apropriado para o reconhecimento é a seção de agradecimentos.

Boas práticas para editores

Periódicos que adotam uma política de autoria clara reduzem ambiguidades e favorecem transparência. Ao solicitar que os autores detalhem as contribuições, por exemplo por meio de taxonomias de função de colaboração, editores ajudam a distinguir autoria de colaboração qualificada. Mecanismos padronizados para declaração de conflitos de interesse, verificação de aprovações éticas e registro de ensaios fortalecem a governança do periódico, reduzem retrabalhos e protegem suas decisões editoriais.

Boas práticas para equipes de pesquisa

Incluir discussão de autoria no plano de projeto, com revisões em marcos críticos, previne controvérsias. Registrar, ainda que de forma simples, decisões de ordem de autoria e responsabilidades evita mal entendidos, especialmente em consórcios. Garantir a inclusão de pesquisadores locais quando os dados vêm de seus contextos agrega relevância, fortalece parcerias e melhora a interpretação dos resultados. Manter todos os autores informados da correspondência com a revista consolida a responsabilidade coletiva.

Um checklist prático para seu próximo manuscrito

  1. Defina critérios e avalie quem cumpre todos os itens de autoria.
  2. Documente como a ordem de nomes foi estabelecida.
  3. Nomeie o autor de correspondência e alinhe suas tarefas.
  4. Liste contribuições de não autores e obtenha autorização para agradecimentos.
  5. Registre o uso de IA, indicando onde ela foi aplicada e como o texto e as imagens foram verificados por humanos.
  6. Combine quem responderá por dados, materiais e códigos após a publicação.
  7. Revise a versão final com todos os autores, confirmando aprovação e responsabilidade compartilhada.

Por que periódicos devem adotar políticas de autoria claras

As diretrizes do ICMJE atualizam a compreensão de autoria para uma ciência que é cada vez mais colaborativa e digital. Ao separar autoria de contribuição, exigir responsabilidade compartilhada e pedir transparência sobre IA, elas protegem leitores, autores e revistas. Para editores, adotar e comunicar essas regras reduz retratações, cartas de disputa e desgaste editorial. Para pesquisadores, elimina arestas de negociação e permite que a energia volte ao lugar certo, que é a qualidade da pesquisa.


Fonte: ICMJE
Texto produzido com auxílio de Inteligência Artificial e revisado pelo autor.
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