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política editorial

Papéis de autoria: por que e como declarar a contribuição de cada pessoa em um artigo científico

Pense no último artigo que você publicou em coautoria. Se alguém perguntasse hoje — um avaliador de projeto, um comitê de progressão na carreira, um pesquisador interessado em replicar o estudo — quem desenhou o protocolo, quem conduziu a coleta em campo, quem rodou a análise estatística ou quem escreveu a primeira versão do texto, onde essa pessoa encontraria a resposta?

Na maioria dos casos, em lugar nenhum. O único registro disponível, na maioria dos casos, é a ordem dos nomes na página de rosto — uma convenção silenciosa que cada área interpreta de um jeito diferente e que, sozinha, não informa nada verificável.

Este texto é dirigido principalmente a quem escreve: autores e pesquisadores que precisam decidir, antes de submeter, como declarar o trabalho de cada integrante da equipe de pesquisa.

Já apresentamos aqui, em texto anterior, o que é a taxonomia CRediT. O foco agora será no por que a atribuição correta dos papéis importa para a sua trajetória e a dos seus colegas, em como decidir quem recebe qual papel e em como redigir a declaração sem cair nos erros mais frequentes. Ao final, ampliaremos a discussão para o outro lado do sistema de submissão — o que a equipe editorial precisa escrever na política da revista para que essa declaração deixe de ser uma formalidade preenchida às pressas.

A ordem dos nomes não é um registro de trabalho

Os 14 papéis do CRediT dispostos em roda e agrupados nas quatro categorias funcionais definidas pelo CASRAI. Elaborado por Eugênio Telles utilizando Claude AI com base na norma ANSI/NISO Z39.104-2022 e na categorização do CASRAI.

Em boa parte das ciências da saúde, o primeiro nome é o de quem mais trabalhou e o último é o de quem lidera o grupo de pesquisa. Em matemática e em economia, a ordem costuma ser alfabética. Em várias áreas das humanidades, artigos de autoria única ainda são comuns e a questão quase não se coloca. Nenhuma dessas regras está escrita em lugar algum: todas são presumidas. E o que é presumido não pode ser auditado — nem reivindicado.

Ao analisar dezenas de milhares de artigos que já traziam declarações de contribuição, Vincent Larivière e colaboradores mostraram que a divisão do trabalho na pesquisa contemporânea é bem mais fragmentada do que a lista de autores deixa entrever e que a posição do nome se relaciona apenas parcialmente com o tipo de contribuição efetivamente prestada1. Em outras palavras: quem lê a lista de autores está lendo hierarquia, não contribuição.

Essa opacidade cobra um preço em duas direções. Para quem faz a pesquisa, o efeito mais imediato é a invisibilidade: quem passou seis meses em campo, quem escreveu o código da análise ou quem organizou e limpou a base de dados aparece na lista exatamente como quem contribuiu de forma pontual. Para a comunidade, o preço são dois problemas antigos e bem documentados — a autoria honorária, quando o chefe de departamento, o coordenador do laboratório ou o financiador entram na lista sem terem contribuído, e a autoria fantasma, quando quem executou parte substancial do trabalho não aparece. Ambos sobrevivem porque a lista de autores não obriga ninguém a dizer o que fez.

Há ainda um risco que costuma passar despercebido e que já apareceu ao tratarmos dos padrões internacionais de integridade na publicação: se um artigo é contestado depois de publicado, a ausência de declaração de contribuições distribui a suspeita igualmente por todos os coautores. Quem não teve qualquer participação na parte questionada não tem como demonstrá-lo. Declarar papéis é, também, uma forma de delimitar a própria responsabilidade.

Autoria e contribuição não são a mesma coisa

Vale fixar uma distinção que costuma se perder.

Autoria é um status: define quem assina, quem responde publicamente pelo trabalho e quem pode reivindicá-lo em um currículo ou em uma avaliação de carreira.

Contribuição é uma descrição: informa qual tarefa concreta cada pessoa executou. Uma responde à pergunta "esta pessoa pode assinar?"; a outra responde "o que exatamente esta pessoa fez?".

Os quatro critérios de autoria do International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE)2 cuidam da primeira pergunta — tema que já desenvolvemos tanto no texto sobre autoria científica, créditos e responsabilidades quanto no que descreve a base normativa formada pelo ICMJE e pela COPE. A taxonomia CRediT cuida da segunda. São camadas complementares e uma não substitui a outra.

Na prática, a distinção resolve situações que toda equipe conhece: o técnico que preparou as amostras, o bolsista que transcreveu e anonimizou as entrevistas, o colega de outro departamento que cedeu o equipamento, etc. Nenhum deles necessariamente preenche os critérios para assinar o artigo — mas todos fizeram algo nomeável e a taxonomia dá nome a isso.

Confundir as duas camadas leva a erros de sentido oposto. De um lado, usar a declaração de contribuições como atalho para conceder autoria a quem não cumpre os critérios ("ele entrou porque cedeu o laboratório", por exemplo). De outro, supor que declarar papéis é redundante porque "todo mundo é autor mesmo". Como argumenta Alex Holcombe, o ganho da taxonomia não está em substituir a autoria, mas em tornar visível o trabalho que a lista de autores esconde — inclusive o de pessoas que contribuíram de forma essencial sem preencher os critérios para assinar3.

E quem contribuiu, mas não assina?

A pergunta é inevitável e a resposta começa por uma verificação honesta: se a pessoa participou o bastante para preencher os critérios de autoria, o lugar dela é na lista de autores. A seção de Agradecimentos não deve servir para acomodar quem deveria assinar. Feita essa checagem, restam as contribuições reais que não sustentam autoria — o técnico que preparou as amostras, o bolsista que transcreveu as entrevistas, o estatístico consultado uma única vez, o colega que cedeu o equipamento.

Para esses casos, o primeiro passo é consultar as instruções da revista. Algumas mantêm uma seção de contribuidores distinta da lista de autores e aceitam registrar papéis CRediT para quem não assina — a taxonomia foi desenhada para colaboradores, não apenas para autores, e nada na norma impede esse uso. Se a revista oferece esse campo, é ali que a contribuição deve ser declarada.

Quando a revista só coleta papéis dos autores, que é o caso da maioria dos periódicos brasileiros, o lugar da contribuição é a seção de Agradecimentos — e vale escrevê-la com o vocabulário da taxonomia. Em vez de um genérico "agradecemos a colaboração de Fulano", nomeie a pessoa seguida do papel exercido: "Agradecemos a João Ribeiro (Curadoria de dados) e a Marina Alves (Análise formal), que não preenchem os critérios de autoria adotados por esta revista." É o que recomenda o ICMJE, que orienta a especificar a contribuição de cada colaborador não autor e lembra que, como o agradecimento pode ser lido como endosso ao trabalho, todas as pessoas nomeadas devem autorizar por escrito a menção.

Uma ressalva importante fecha o raciocínio: o que vai nos Agradecimentos é texto livre, não metadado estruturado. Esse crédito será lido por humanos, mas não chegará ao XML como elemento rastrável, nem ao registro ORCID da pessoa, nem aos sistemas que consomem esses dados. O reconhecimento existe, mas não é rastreável por máquina — e é exatamente por isso que a política da revista faz diferença, como veremos ao final.

Os 14 papéis do CRediT

A Contributor Roles Taxonomy — CRediT, na sigla consagrada — nasceu de um workshop realizado em 2012 pela Wellcome Trust e pela Universidade Harvard e foi apresentada à comunidade editorial em 2015, em artigo assinado por Amy Brand e colaboradores4. Em 2022, deixou de ser uma iniciativa de comunidade e passou a ser norma formal: a ANSI/NISO Z39.104-20225.

A diferença não é cosmética. Uma norma ANSI/NISO é o tipo de referência que agências de fomento, bases de indexação e desenvolvedores de sistemas adotam sem renegociar detalhes — é o que garante que o papel declarado no seu artigo signifique exatamente a mesma coisa em qualquer outro lugar do mundo.

São 14 papéis, nem mais nem menos. Apresento abaixo tradução da categorização funcional dos papéis conforme o CASRAI6, com a tradução adotada pela documentação do SciELO Publishing Schema7 — referência para as revistas brasileiras que publicam em XML no padrão SciELO — acompanhada da definição oficial de cada papel, disponível no site da taxonomia8 e já abordada aqui no blog:

Os 14 papéis com a definição oficial de cada um, organizados por categoria funcional.. Elaborado por Eugênio Telles utilizando Claude AI com base na norma ANSI/NISO Z39.104-2022 e na categorização do CASRAI.

Uma observação que evita muita confusão: a lista é fechada. Não se inventa um décimo quinto papel, nem se adapta a definição de um papel existente para acomodar uma situação particular. Se um trabalho não se encaixa em nenhum dos 14, ele provavelmente pertence à seção de Agradecimentos e não à declaração de contribuições.

Grau de contribuição: principal, igual ou de apoio

A norma prevê um refinamento opcional. Além de indicar que uma pessoa exerceu determinado papel, é possível qualificar o grau dessa participação em três níveis: principal (lead), igual (equal) e de apoio (supporting). O recurso resolve o caso mais frequente em equipes grandes — quatro pessoas coletaram dados, mas uma delas coordenou a coleta; três escreveram, mas apenas uma redigiu a primeira versão.

Antes de submeter, confira nas instruções aos autores se a revista adota os graus. Se adotar, use-os em todos os papéis declarados e não apenas naqueles em que a sua participação foi maior — a graduação seletiva distorce a leitura do conjunto. Se a revista não os menciona, declare somente os papéis.

Como isso se parece na prática

Vale contrastar. A frase abaixo aparece, com pequenas variações, em milhares de artigos brasileiros — talvez em algum dos seus:

Todos os autores contribuíram igualmente para a concepção, a análise e a redação do manuscrito e aprovaram a versão final.

Ela não informa nada. É uma declaração de conformidade, não de contribuição — e quando aparece em um artigo com nove autores, por exemplo, é quase certamente falsa. Compare com três exemplos redigidos segundo a taxonomia, de áreas diferentes.

Ensaio clínico multicêntrico (saúde). Contribuições dos autores: M. A. Sales: Conceitualização (principal); Metodologia (principal); Aquisição de financiamento; Supervisão; Redação – revisão e edição. J. P. Lemos: Investigação (principal); Curadoria de dados; Redação – rascunho original. R. Okamoto: Análise formal (principal); Software; Visualização. C. D. Ferraz: Investigação (de apoio); Recursos. T. B. Nunes: Administração do projeto; Validação; Redação – revisão e edição.

Repare no que a declaração informa e o que a ordem dos nomes jamais informaria: quem obteve o financiamento não é quem analisou os dados; quem escreveu a primeira versão não é quem lidera o grupo; e a validação dos resultados coube a alguém que não participou da análise — exatamente o arranjo que se espera de um estudo confiável.

Pesquisa qualitativa em educação (humanas). Contribuições das autoras: A. L. Ribeiro: Conceitualização; Metodologia; Investigação (principal); Análise formal (igual); Redação – rascunho original (principal). M. H. Batista: Conceitualização; Análise formal (igual); Redação – rascunho original (de apoio); Redação – revisão e edição (principal). S. Vieira: Curadoria de dados; Validação; Visualização.

Aqui a taxonomia desfaz um mal-entendido comum: análise formal não é sinônimo de estatística. Codificação temática, análise de conteúdo e análise do discurso são técnicas formais de análise e se declaram como tal. O mesmo vale para curadoria de dados, que em pesquisa qualitativa cobre a transcrição, a anonimização e a organização do corpus — trabalho pesado que costuma desaparecer sem deixar rastro.

Artigo com componente computacional (ciência de dados). Contribuições dos autores: D. Carvalho: Software (principal); Metodologia; Validação; Visualização. P. Menezes: Conceitualização; Análise formal; Redação – rascunho original. L. F. Antunes: Curadoria de dados (principal); Recursos. E. Tanaka: Supervisão; Aquisição de financiamento; Redação – revisão e edição.

Este é o caso em que a taxonomia tem maior impacto sobre carreiras. Quem desenvolve o código de um estudo raramente aparece como primeiro autor e, sem uma declaração explícita, seu trabalho fica indistinguível do de qualquer outro coautor. Declarar "Software (principal)" transforma uma contribuição historicamente invisível em um registro citável.

Cinco erros comuns na declaração de contribuições

Os erros a seguir aparecem com regularidade nos formulários de submissão. Vale conferir a sua declaração com base nesta lista antes de enviar o manuscrito — depois da publicação, corrigir uma atribuição exige uma errata.

1. ❌ A declaração-espelho. Todos os autores recebem exatamente os mesmos papéis. É o equivalente taxonômico da frase genérica citada acima e quase sempre indica que o formulário foi preenchido no último minuto, por conveniência. Em equipes de mais de três pessoas, papéis idênticos para todos são improváveis — e editores atentos costumam perguntar.

2. ❌ O orientador exclusivamente em "Supervisão". Se o orientador desenhou o estudo, ele exerceu Conceitualização e provavelmente Metodologia. Supervisão descreve liderança e mentoria sobre a execução da pesquisa — não substitui os papéis intelectuais efetivamente exercidos nem dispensa declará-los. O inverso também vale: não atribua papéis ao orientador por deferência, se ele não os exerceu.

3. ❌ "Redação – revisão e edição" usada para revisão de idioma. O papel se refere à revisão crítica de conteúdo feita por integrantes do grupo de pesquisa. Revisor de texto contratado, tradutor profissional e serviço de edição de idioma não são contribuidores nesse sentido: vão para os Agradecimentos, com menção explícita ao serviço prestado.

4. ❌ "Recursos" confundido com "Aquisição de financiamento". Recursos é o fornecimento material — equipamento, reagentes, amostras, acesso a pacientes, tempo de processamento. Financiamento é a obtenção do dinheiro. Quem escreveu o projeto aprovado na agência de fomento exerceu o segundo papel; quem cedeu o microscópio exerceu o primeiro.

5. ❌ Papéis pensados apenas para quem assina. A taxonomia foi desenhada para colaboradores, não só para autores. Se alguém contribuiu de forma nomeável sem preencher os critérios de autoria, verifique se a revista aceita registrá-lo como contribuidor; se não aceitar, descreva a contribuição nos Agradecimentos usando o nome do papel. O que não se pode fazer é o inverso: usar a declaração de papéis como porta de entrada para a assinatura.

Declarar contribuição é metadado, não cortesia

O ponto que costuma escapar é que a declaração de contribuições não é um parágrafo simpático no fim do artigo: é metadado estruturado, legível por máquina. E é justamente isso que a torna útil para a sua carreira, e não apenas para a transparência do artigo.

No XML JATS do padrão SciELO, cada papel é marcado dentro do elemento "contrib", com o atributo content-type apontando para a URL canônica do papel na taxonomia7:

    
<contrib contrib-type="author">
    <name>
  <surname>Silva</surname>
  <given-names>Rosângela</given-names>
    </name>
    <role content-type=
      "http://credit.niso.org/contributor-roles/conceptualization/">
  Conceitualização
    </role>
</contrib>
    

É essa URL — e não o texto em português — que torna o dado interoperável. Um agregador que leia o XML da revista reconhece o papel independentemente do idioma em que ele foi grafado (leia este artigo para mais detalhes sobre a aplicação da taxonomia em XML-JATS).

O mesmo raciocínio vale para o ORCID. Desde a versão 3.0 de sua API, o registro ORCID aceita papéis CRediT associados a um trabalho9 e a informação passa a circular para todos os sistemas que consomem dados do ORCID. Ou seja: o papel que você declara na submissão pode acabar no seu próprio registro, visível a qualquer avaliador que o consulte. Se você ainda não usa o ORCID de forma sistemática, vale rever os identificadores da publicação científica — é o identificador que sustenta todo o resto.

Do lado dos sistemas, o caminho já está aberto. No OJS existe um plugin desenvolvido pela Contributorship Collaboration10 disponível para versões a partir da 3.4.x. Some-se a isso o avanço da parceria entre Crossref e PKP por metadados mais ricos e o quadro fica claro: a declaração de papéis está deixando de ser um diferencial para virar campo obrigatório de formulário. Quem já se acostumou a preenchê-la com cuidado chega na frente.

E quando a inteligência artificial teve alguma participação no trabalho?

É a pergunta da qual nenhum autor escapa hoje: se um sistema de IA generativa participou da redação, da tradução ou da organização do texto, isso vira um papel CRediT?

Não. A taxonomia descreve contribuições de pessoas e o consenso internacional — reafirmado tanto pelo ICMJE quanto pela COPE11 — é que sistemas de IA não podem ser autores, porque não podem assumir responsabilidade pelo conteúdo nem responder por ele. O caminho é outro: uma declaração específica, paralela e complementar à de contribuições.

No Brasil, os periódicos da Fundação Oswaldo Cruz estão entre os pioneiros e é neles que vale se espelhar. Em novembro de 2024 — mais de um ano antes de a exigência virar política pública no Brasil — os editores de Cadernos de Saúde Pública, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, publicaram o editorial "Inteligência artificial e processo editorial em CSP"12, assinado por Luciana Correia Alves, Luciana Dias de Lima e Marilia Sá Carvalho, fixando a posição da revista.

O desenho da política importa mais do que possa parecer: CSP não proíbe, regula. Considera aceitável que o autor use IA generativa para estruturar temas e tópicos como rascunho, sugerir títulos, ajustar frases à linguagem formal, produzir e corrigir códigos de programação, apoiar análises estatísticas, formatar o artigo e as referências e traduzir o texto para outro idioma. Em contrapartida, estabelece que é fundamental que os autores indiquem, nas seções pertinentes do artigo — como métodos ou agradecimentos —, em que etapas a ferramenta foi utilizada. E adere expressamente à posição da COPE de que a IA não pode ser creditada como autora, pelo argumento que já percorremos aqui: ela não aprova a versão final, não garante a integridade do trabalho e não assina termo de cessão de direitos autorais.

Outro periódico da Fiocruz foi além e transformou a orientação em política formal, com estrutura de declaração. Os Cadernos Ibero-Americanos de Direito Sanitário13, da Fiocruz Brasília, mantêm uma Política para o Uso de Ferramentas de Inteligência Artificial — atualizada em 23 de dezembro de 2025 — que separa usos permitidos (revisão gramatical e de estilo, formatação de referências, auxílio em análise de dados com o método explicitado, geração de resumos revisados e validados pelos autores) de usos vedados (texto gerado integralmente por IA sem supervisão humana, fabricação ou manipulação de dados, atribuição de autoria à IA, omissão do uso, traduções e paráfrases automáticas não revisadas). E, sobretudo, define onde e como declarar: na folha de rosto, no resumo e na seção de metodologia, informando o nome da ferramenta, a função desempenhada e a extensão do uso — com uma frase-modelo pronta para o autor adaptar. A omissão, diz a política, constitui violação ética grave.

Na mesma direção, as Memórias do Instituto Oswaldo Cruz14 recomendam, em sua política editorial, que o uso de qualquer tecnologia de IA generativa seja divulgado e que os autores apontem de que forma a utilizaram no manuscrito submetido.

Se esses casos parecem exigentes, é porque anteciparam o que hoje é regra. Em março de 2026, a Portaria nº 2.664 do CNPq instituiu a Política de Integridade na Atividade Científica da agência15, com exigência de declaração do uso de IA na concepção, na redação e na análise de dados. Na mesma época, o Virtualia Journal, da Universidade Federal de Ouro Preto, lançou a Declaração CRediT-IAmodelo público16 que organiza a declaração em sete campos:

  1. ferramenta utilizada
  2. versão ou modelo
  3. finalidade do uso
  4. tipo de uso
  5. limites do uso (o que explicitamente não foi feito com IA)
  6. confirmação de que as decisões intelectuais centrais permaneceram humanas
  7. declaração final de responsabilidade integral.

É a formulação mais estruturada disponível hoje em português e estende as mesmas exigências a editores, pareceristas e organizadores de dossiês.

Na prática, o que muda para você é simples: guarde, desde o início do trabalho, o registro de qual ferramenta usou, em que etapa e com qual finalidade. Nenhum dos modelos acima pede mais do que isso — e todos tratam a omissão como falta ética, não como esquecimento.

O princípio de fundo é o mesmo do CRediT: transparência sobre quem fez o quê. A inteligência artificial apenas acrescenta uma segunda pergunta — e por meio de qual ferramenta.

Existe uma ferramenta que facilita o preenchimento

Preencher 14 papéis para oito autores em um formulário de submissão é tedioso, e o tédio é inimigo da precisão. Foi para resolver isso que surgiu o tenzing17, aplicativo gratuito e de código aberto descrito em artigo de Alex Holcombe, Marton Kovacs e colaboradores18. O funcionamento é simples: a equipe preenche uma planilha em que cada linha é um colaborador e cada coluna é um papel, carrega o arquivo na ferramenta e recebe, pronta, a declaração de contribuições em texto corrido, a lista de afiliações formatada, o XML JATS correspondente e blocos auxiliares de financiamento e de conflito de interesses.


Figura 3. A interface do tenzing. O fluxo tem três passos: criar a tabela de colaboradores a partir do modelo, carregá-la por URL ou arquivo local e escolher a saída desejada. Fonte: tenzing17.

Figura 4. O modelo de tabela de colaboradores do tenzing. Cada linha é uma pessoa e cada coluna, um dos 14 papéis do CRediT, além dos campos de identificação — nome, ORCID, afiliação e ordem na publicação. Fonte: tenzing17

O ganho maior, porém, não é o tempo economizado: é a conversa que a planilha obriga a equipe a ter. Preencher a matriz de papéis logo no início do projeto — e não na véspera da submissão — antecipa desentendimentos sobre autoria para o momento em que ainda dá para negociá-los. É provavelmente a recomendação mais útil deste texto.

Do outro lado do fluxo: o que a revista precisa escrever na política editorial

Até aqui, o texto tratou do que está sob o controle de quem escreve. Mas a declaração de contribuições só se generaliza quando a revista a exige — e a exige de forma clara. Se você também atua como editor, ou se quer saber o que pode cobrar da revista à qual submete, estes são os cinco pontos que uma política editorial precisa cobrir:

1. Exigência e data de vigência. A política deve declarar que a submissão só será aceita com a declaração de contribuições segundo a taxonomia CRediT, preenchida para todos os autores, e informar a partir de qual data a exigência vale. Sem data, a regra vira recomendação — e recomendação não é cumprida.

2. Distinção entre autoria e contribuição. Explicite os critérios de autoria adotados pela revista (os quatro do ICMJE são os mais portáveis entre áreas) e deixe claro que declarar um papel CRediT não confere, por si só, o direito de assinar. Diga também para onde vão as contribuições que não sustentam autoria: a seção de Agradecimentos.

3. Vocabulário fixo e grau de contribuição. Determine que apenas os 14 papéis oficiais serão aceitos, com a tradução do SciELO Publishing Schema, e informe se a revista adota os graus “principal”, “igual” e “de apoio”. Publique a lista completa com as definições em uma página do site: o autor não deve precisar procurar essa informação fora da revista.

4. Responsabilidade pela declaração. Estabeleça que o autor de correspondência responde pela exatidão da declaração e que ela deve ser confirmada por todos os coautores antes do aceite. Preveja também o procedimento para alterar papéis depois da publicação — que é, formalmente, uma modalidade de errata.

5. Publicação e marcação nos metadados. Comprometa-se a publicar a declaração no artigo, em seção própria e identificável e a registrar os papéis nos metadados: no XML JATS, no depósito Crossref e, quando possível, no registro ORCID de cada autor. É esse último item que separa a revista que declara da revista que apenas escreve.


Adotar a taxonomia não elimina os conflitos de autoria: eles continuarão existindo, porque nascem de relações de poder que nenhuma norma dissolve. O que ela faz é obrigar que esses conflitos apareçam antes da submissão, quando ainda podem ser negociados entre as pessoas envolvidas, em vez de depois — quando já viraram um caso para o editor resolver ou, na pior das hipóteses, uma disputa pública.

E há um efeito de médio prazo que ainda se subestima. À medida que agências de fomento, comitês de avaliação e sistemas de currículo passam a ler papéis de contribuição em vez de apenas contar artigos, quem já declara o próprio trabalho de forma estruturada sai na frente.

Do lado da revista, publicar esses dados de forma estruturada é entregar aos seus autores algo que nenhuma métrica de impacto entrega: a prova verificável do que cada um deles, de fato, fez.

Referências

  1. Larivière V, Desrochers N, Macaluso B, Mongeon P, Paul-Hus A, Sugimoto CR. Contributorship and division of labor in knowledge production. Social Studies of Science. 2016;46(3):417-435. Disponível em: https://doi.org/10.1177/0306312716650046
  2. International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE). Recommendations for the Conduct, Reporting, Editing, and Publication of Scholarly Work in Medical Journals. Disponível em: https://www.icmje.org/recommendations/
  3. Holcombe AO. Contributorship, not authorship: use CRediT to indicate who did what. Publications. 2019;7(3):48. Disponível em: https://doi.org/10.3390/publications7030048
  4. Brand A, Allen L, Altman M, Hlava M, Scott J. Beyond authorship: attribution, contribution, collaboration, and credit. Learned Publishing. 2015;28(2):151-155. Disponível em: https://doi.org/10.1087/20150211
  5. National Information Standards Organization (NISO). ANSI/NISO Z39.104-2022, CRediT, Contributor Roles Taxonomy. Baltimore: NISO; 2022. Disponível em: https://www.niso.org/publications/z39104-2022-credit
  6. CASRAI. CRediT — Contributor Roles Taxonomy: os 14 papéis por categoria funcional. Disponível em: https://casrai.org/credit/roles
  7. SciELO. Taxonomia CRediT. In: SciELO Publishing Schema: documentação. Disponível em: https://scielo.readthedocs.io/projects/scielo-publishing-schema/pt-br/master/narr/taxonomia-credit.html
  8. CRediT — Contributor Roles Taxonomy. Definições oficiais dos 14 papéis. Disponível em: https://credit.niso.org/
  9. ORCID. CRediT for research contribution. Disponível em: https://info.orcid.org/pt/credit-for-research-contribution/
  10. Contributorship Collaboration. Implementing CRediT in the Open Journal Systems. Disponível em: https://contributorshipcollaboration.github.io/projects/experiment/
  11. Committee on Publication Ethics (COPE). Authorship and AI tools: COPE position statement. 2023. Disponível em: https://publicationethics.org/guidance/cope-position/authorship-and-ai-tools
  12. Alves LC, Lima LD, Carvalho MS. Inteligência artificial e processo editorial em CSP. Cadernos de Saúde Pública. 2024;40(11):e00189024. Disponível em: https://www.scielosp.org/article/csp/2024.v40n11/e00189024/pt/
  13. Cadernos Ibero-Americanos de Direito Sanitário. Política para o Uso de Ferramentas de Inteligência Artificial. Atualizada em 23 dez. 2025. Disponível em: https://www.cadernos.prodisa.fiocruz.br/index.php/cadernos/usoia
  14. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. Editorial Policy. Disponível em: https://memorias.ioc.fiocruz.br/editorial-policy
  15. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Portaria nº 2.664, de 6 de março de 2026. Institui a Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq. Disponível em: https://www.gov.br/cnpq/pt-br/assuntos/noticias/cnpq-em-acao/cnpq-publica-portaria-que-institui-politica-de-integridade-na-atividade-cientifica
  16. Virtualia Journal. Declaração CRediT-IA. Universidade Federal de Ouro Preto; 2026. Disponível em: https://periodicos.ufop.br/virtualia-journal/credit-ia
  17. tenzing: a web app for documenting contributorship. Disponível em: https://tenzing.club/
  18. Holcombe AO, Kovacs M, Aust F, Aczel B. Documenting contributions to scholarly articles using CRediT and tenzing. PLOS ONE. 2021;16(1):e0244611. Disponível em: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0244611
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