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política editorial

Errata, corrigendum, addendum e retração: como classificar e processar correções na literatura científica (Guia prático)

Correções e retratações fazem parte do ciclo normal da ciência. O que não deveria ser rotineiro — mas o é, em muitos periódicos — é a ausência de políticas claras para lidar com elas quando surgem. Sem uma tipologia definida, a resposta ao erro tende a ser improvisada: ora excessiva, ora insuficiente, quase sempre inconsistente. Este texto propõe um guia prático: como classificar os erros, identificar o instrumento editorial adequado e conduzir o processo de correção com rigor e transparência.

Classificar antes de agir: os quatro tipos de erro

Na prática editorial, nem todo erro tem a mesma natureza e a resposta adequada depende diretamente de como o problema é identificado e classificado. A literatura editorial consolidou uma tipologia de quatro categorias1:

Erros menores: têm natureza tipográfica e não comprometem o conteúdo científico. Podem ser corrigidos silenciosamente na versão online, sem aviso formal para leitores.

Erros substantivos: comprometem informações críticas, como o nome de um autor, a dose de um medicamento, um valor central dos resultados. Exigem a publicação de um aviso de correção formalmente vinculado ao artigo original — com DOI próprio e indexação.

Erros pervasivos: afetam múltiplas seções e podem tornar o trabalho metodologicamente comprometido. A resposta adequada é uma carta explicativa acompanhada de aviso de correção ou, nos casos mais graves, a retratação seguida da substituição por uma versão corrigida — modalidade que preserva o crédito científico dos autores quando o erro é reconhecidamente não intencional.

Má conduta científica: fabricação de dados, falsificação de resultados ou plágio resultam em aviso de retratação. Quando a investigação ainda está em curso, o instrumento adequado é uma Expressão de Preocupação (Expression of Concern), que sinaliza publicamente a situação sem antecipar conclusões1.

Os erros chegam às redações por caminhos variados: leitores, os próprios investigadores em análises posteriores, pesquisadores tentando replicar o estudo, a equipe editorial ou a imprensa. Independentemente da origem, o processo de investigação segue uma lógica invariável: comunicação formal com os autores, análise dos documentos originais e a pergunta central sobre como o erro ocorreu e o que pode ser feito para evitar recorrência. Esse rigor processual é o que diferencia uma correção legítima de um gesto meramente defensivo.

Os quatro tipos de emendas: qual usar em cada situação

Além de classificar o erro, o editor precisa escolher o instrumento editorial correto. A tipologia dos erros indica a gravidade; a taxonomia das emendas define quem é responsável e qual é o procedimento cabível. Uma taxonomia consolidada distingue quatro tipos2:

Erratas (Erratum): corrigem erros introduzidos pela própria revista durante a edição ou a produção — não pelos autores. Unidades científicas incorretas inseridas na diagramação, endereços de e-mail com erros tipográficos na composição ou omissões de prova introduzidas pela equipe são exemplos característicos. A responsabilidade é da publicação e o aviso deve deixar isso claro.

Correções/Retificações (Corrigendum): são submetidas pelos próprios autores quando a acurácia científica ou a reprodutibilidade do trabalho está comprometida. Também são aceitas para corrigir a lista de autoria em casos de omissão ou inclusão indevida. A distinção em relação à errata é fundamental: enquanto a errata aponta um erro da revista, a corrigenda reconhece um erro dos autores. Confundi-las não é apenas um equívoco terminológico — é uma questão de atribuição correta de responsabilidades e de transparência perante a comunidade científica.

Adendos (Addendum): acrescentam informações relevantes omitidas inadvertidamente do artigo original, sem contradizer seu conteúdo. Antes de serem publicadas, devem passar por nova avaliação por pares — o que garante que o acréscimo mantenha o mesmo padrão de rigor da publicação original. São um recurso menos frequente, mas especialmente útil em trabalhos técnicos em que a omissão de um dado complementar compromete a aplicabilidade dos resultados.

Retratações: são aplicadas quando a conclusão principal do artigo é comprometida de forma grave — por descobertas posteriores, por impossibilidade de replicação experimental ou por infrações éticas. O processo exige concordância de todos os coautores; quando algum deles recusa, a boa prática editorial prevê que a retratação seja publicada identificando os dissidentes — procedimento alinhado às diretrizes do Committee on Publication Ethics (COPE) que preserva a integridade do registro sem depender do consenso2. A retratação com substituição — modalidade que permite publicar uma versão corrigida no lugar do artigo retratado — é reservada para erros pervasivos não intencionais e distingue claramente o erro honesto da fraude deliberada1.

Como conduzir o processo na prática

Recebida a notificação de um erro — seja de qual origem for —, o editor deve abrir formalmente o caso e notificar todos os autores do artigo, solicitando resposta dentro de prazo razoável. A comunicação deve ser documentada. Durante a investigação, o artigo permanece publicado; caso a situação seja grave e a incerteza prolongada, o instrumento adequado é a Expression of Concern, que sinaliza ao leitor que o trabalho está sob avaliação sem antecipar um veredicto.

A investigação deve buscar responder três perguntas objetivas:

  • o erro afeta as conclusões do artigo?
  • O erro foi intencional ou inadvertido?
  • Há necessidade de notificação a outras partes (instituições dos autores, agências de fomento, bases de dados)?

 

As respostas orientam diretamente a escolha do instrumento editorial — errata, correção, adendo, retração simples ou retração com substituição.

Ao final do processo, a correção ou retratação deve receber DOI próprio, ser formalmente vinculada ao artigo original em ambas as direções (o artigo aponta para a correção; a correção aponta para o artigo) e ser depositada no Crossref com o atributo Crossmark atualizado. Esse encadeamento garante que leitores que acessam o artigo original sejam informados da situação — independentemente de onde o encontraram.

Orientações do COPE: o que os casos reais ensinam

O COPECommittee on Publication Ethics — publica orientações e casos comentados que traduzem os princípios gerais em decisões concretas. Quatro situações recorrentes ilustram nuances que a tipologia formal nem sempre captura:

Erratum ou Corrigendum? Investigue antes de nomear

A distinção entre os dois instrumentos — já detalhada em parágrafos anteriores — é, na prática, precedida por uma etapa que define tudo: a verificação da origem do erro. O COPE orienta que o editor investigue se o problema existia no manuscrito original ou foi introduzido durante a produção antes de atribuir responsabilidade e nomear o instrumento7. Periódicos que optam por um termo genérico (“correção”) e acrescentam uma nota explicando a origem do erro agem dentro das boas práticas, desde que o contexto seja transparente. Os autores devem ser notificados antes da publicação de qualquer aviso e, sempre que possível, devem concordar com a redação — sem que haja exigência de pedido de desculpas.

Erros analíticos sem má conduta: a extensão importa mais do que a intenção

Erros estatísticos ou metodológicos identificados pós-publicação, mesmo sem evidência de má conduta, podem exigir retratação quando as alterações necessárias comprometem substancialmente os resultados. O critério decisivo, segundo o COPE, não é apenas a intenção dos autores — é a extensão das mudanças8. Se o artigo corrigido seria essencialmente diferente do original, a retratação — com ou sem substituição — pode ser mais adequada do que uma corrigenda. O princípio norteador é garantir que o leitor compreenda o que ocorreu e possa avaliar o conteúdo resultante com clareza.

Conteúdo gerado por IA: uma categoria emergente

O uso não declarado de ferramentas de geração de texto por inteligência artificial configura uma nova categoria de preocupação com a integridade. O COPE orienta que detectores automáticos de IA não sirvam como critério definitivo — essas ferramentas não são infalíveis e os resultados devem ser interpretados por especialistas9. O primeiro passo é contatar o autor em tom neutro, citando as diretrizes do periódico sobre autoria e uso de IA. Para artigos já publicados, a retratação só se justifica quando o editor não pode mais confiar na integridade do trabalho como um todo.

Artigos antigos: sem prazo de validade para a integridade

A antiguidade de um artigo não é critério suficiente para dispensar uma investigação. O COPE é explícito: cada caso deve ser avaliado individualmente, mesmo quando o artigo foi publicado há anos ou décadas10. O que pode mudar com o tempo é a disponibilidade de dados originais e a capacidade de investigação — mas não a obrigação de agir quando há evidência concreta de problema.

Crossmark: a ferramenta para registro de correções e retratações

O Crossmark é um serviço do Crossref que permite verificar, em tempo real, o status atual de um artigo publicado com DOI. Para que funcione, o periódico precisa aderir ao serviço e implementar ativamente o botão Crossmark em suas páginas e PDFs, vinculando-o ao DOI de cada artigo. Uma vez configurado, o leitor que clicar no botão vê imediatamente se o trabalho foi corrigido, retratado ou se há alguma expressão de preocupação associada — independentemente de onde o encontrou, seja em uma base de dados, em um repositório ou no próprio site do periódico. Para revistas que utilizam DOIs registrados no Crossref, manter o Crossmark atualizado após correções e retratações é o mecanismo mais eficaz de garantir que a informação chegue ao leitor no ponto de acesso, sem depender de reindexação por sistemas intermediários.

Um dos obstáculos práticos para editores que pretendem registrar suas correções é a geração do arquivo XML no formato exigido pelo Crossref para atualização de metadados via Crossmark. Para simplificar esse processo, desenvolvemos, durante participação no Crossref Metadata Sprint São Paulo 2026, a Scholarly Retraction and Correction Tool — ferramenta gratuita disponível em scholarlyretractiontool.org3.

A ferramenta funciona sem necessidade de cadastro: o editor informa o DOI do artigo, e o sistema recupera automaticamente os metadados existentes no Crossref. A partir daí, é possível preencher os dados da correção ou retratação e gerar o arquivo XML correspondente — que pode ser copiado, baixado ou depositado diretamente no Crossref com as credenciais do periódico. A plataforma não armazena dados de usuários, credenciais ou arquivos gerados, e integra informações da Retraction Watch Database para consulta e visualização do cenário de retratações por país e área temática3.

O cenário em perspectiva: por que isso importa agora

Para situar a relevância do tema, vale observar o contexto em que esses procedimentos operam. As retratações na literatura científica cresceram de forma consistente nos últimos vinte anos, em ritmo superior ao das publicações. Dados da Retraction Watch Database (2018–2023) mostram que o fenômeno é geograficamente concentrado — com China (45,07%), Paquistão (6,34%) e Índia (5,63%) liderando — e setorialmente específico, com oncologia, cardiologia e oftalmologia entre as especialidades mais afetadas4. O tempo mediano entre publicação e retratação é de 9,5 meses para casos de plágio, e estima-se que cerca de três anos se passem até que a retratação seja devidamente indexada no PubMed — janela em que o artigo questionável continua sendo citado.

Esse cenário é agravado pelo crescimento das paper mills — empresas que ofertam manuscritos por encomenda, inclusão de nomes em artigos já aceitos e intermediação acadêmica em escala industrial. O maior estudo já realizado sobre esse mercado identificou mais de 18 mil anúncios publicados entre 2020 e 2026 por sete empresas que atuam em múltiplos países5 — o que significa que periódicos sem procedimentos claros para lidar com suspeitas de má conduta se tornam alvos mais vulneráveis.

Em resposta a esse quadro, agências de fomento começam a incorporar o histórico de retratações como critério de avaliação. A Índia passou a exigir que pesquisadores informem retratações ocorridas nos últimos cinco anos ao solicitar financiamento junto à Anusandhan National Research Foundation (ANRF)6. A China adota medidas semelhantes há mais tempo. A integridade científica migrou do campo exclusivamente editorial para o campo da governança da pesquisa.

Corrigir é um ato de confiança na ciência

Ter uma política de correções e retratações publicada, com tipologia clara e procedimentos definidos, não é um requisito burocrático: é um sinal de maturidade editorial. Indexadores como SciELO, Latindex e Redalyc incluem critérios de transparência editorial em seus sistemas de avaliação, e periódicos que já possuem esses procedimentos formalizados estão melhor posicionados diante de autores, leitores e agências de fomento. Corrigir com rigor é, em essência, um ato de confiança na ciência — a demonstração de que o periódico leva a sério a integridade do que publica1.

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Referências

  1. Christiansen S, Flanagin A. Correcting the Medical Literature: 'To Err Is Human, to Correct Divine'. JAMA. 2017;318(9):804–805. doi:10.1001/jama.2017.11833
  2. Open Access Macedonian Journal of Medical Sciences. Retraction Policy. Disponível em: https://oamjms.eu/index.php/mjms/retraction_oamjms
  3. Telles E. Scholarly Retraction and Correction Tool. GeniusDesign / Crossref Metadata Sprint São Paulo 2026. Disponível em: https://scholarlyretractiontool.org
  4. Telles E. Editorial de revista americana revela avanço das retratações na literatura médica mundial. Periódico Eletrônico, 26 jan. 2026. Disponível em: https://periodicoeletronico.com.br/editorial-de-revista-americana-revela-avanco-das-retratacoes-na-literatura-medica-mundial
  5. Coradel J. Estudo revela mercado global de fraude acadêmica operado por empresas de venda de artigos científicos. Periódico Eletrônico, 22 jun. 2026. Disponível em: https://periodicoeletronico.com.br/estudo-revela-mercado-global-de-fraude-academica-operado-por-empresas-de-venda-de-artigos-cientificos
  6. Coradel J. Retratações deixam de ser apenas um problema editorial e chegam ao financiamento. Periódico Eletrônico, 10 jun. 2026. Disponível em: https://periodicoeletronico.com.br/retratacoes-deixam-de-ser-apenas-um-problema-editorial-e-chegam-ao-financiamento
  7. Committee on Publication Ethics (COPE). Corrigendum or erratum? Case 19-21. 2019. Disponível em: https://publicationethics.org/guidance/case/corrigendum-or-erratum
  8. Committee on Publication Ethics (COPE). Handling statistical errors in a published article but with no evidence of intentional misconduct. Disponível em: https://publicationethics.org/guidance?f%5B0%5D=topics%3A17
  9. Committee on Publication Ethics (COPE). Suspected AI-generated manuscripts. Case 26-11. Disponível em: https://publicationethics.org/guidance/case/suspected-ai-generated-manuscripts
  10. Committee on Publication Ethics (COPE). Handling retractions and expressions of concern for old articles. COPE Position Statement. Disponível em: https://publicationethics.org/guidance?f%5B0%5D=topics%3A17
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