Se você já se pegou relendo uma diretriz de submissão, um parecer editorial ou um e-mail automático do sistema de periódicos para entender o que exatamente precisava fazer, você sentiu na pele o problema que a linguagem simples resolve: excesso de carga cognitiva. Em publicações científicas, onde cada etapa — da submissão ao pós-publicação — depende de instruções precisas e ações corretas, texto confuso vira retrabalho, atraso e frustração. A boa notícia é que dá para escrever de forma clara, direta e ainda assim tecnicamente rigorosa.

No serviço público brasileiro, a linguagem simples virou método com começo, meio e fim: planejar, desenvolver e testar. Trazendo esse arcabouço¹ para o ecossistema editorial, editores e pesquisadores ganham uma trilha prática para produzir textos que de fato funcionam: reduzem dúvidas, encurtam ciclos de revisão e aumentam a satisfação de autores, pareceristas e leitores.

Linguagem simples não é “simplória” — é eficiência com rigor

Há um mito persistente de que clareza significa abrir mão de precisão. É o oposto. Linguagem simples não é gíria, não é gramática relaxada, nem “trocar termo técnico por palavra vaga”. É organizar a informação para que a pessoa certa encontre o que precisa, entenda de primeira e consiga usar a informação para agir. Em ciência, isso significa que políticas editoriais continuam exatas; o que muda é a arquitetura, a escolha de palavras e a forma de orientar a ação. O objetivo é reduzir o esforço mental de quem lê sem perder exatidão.

Por que isso importa em publicação científica?

Periódicos operam em fluxos críticos: submissão, triagem, revisão por pares, decisão, produção e difusão. Em cada etapa, instruções pouco claras se traduzem em submissões rejeitadas por formato, pareceres incompletos, correções de prova intermináveis e leitores que desistem. Linguagem simples ataca esse desperdício: quanto menor o gasto cognitivo para entender uma tarefa, maior a chance de execução correta e rápida. Em escala, isso encurta prazos editoriais, diminui tickets de suporte e melhora a experiência do ecossistema inteiro — sem mudar os critérios de qualidade.

Etapa 1 — Planejar: quem precisa fazer o quê, quando e por quê

Antes de escrever, defina a tarefa do leitor e o resultado esperado.

  • Para “Instruções aos Autores”, liste as ações obrigatórias em ordem cronológica — criar conta, escolher seção, preencher metadados, anexar arquivos, declarar conflitos, indicar revisores.
  • Nomeie com precisão os perfis: autor correspondente, coautor, editor de seção, avaliador, bibliotecário.
  • Mapeie palavras que o seu público já usa e termos técnicos que precisam de explicação breve no primeiro uso.
  • Transforme normas em decisões: se uma exigência é obrigatória, diga “é obrigatório” e explique a razão em uma frase. Essa etapa define a arquitetura de informação e evita que o texto nasça torto.

Etapa 2 — Desenvolver: arquitetura, texto e design trabalhando juntos

Organize do mais importante para o detalhe, como uma pirâmide invertida.

  • Inicie com o que o leitor precisa saber para começar a tarefa, depois acrescente exceções e justificativas.
  • Use títulos descritivos (“Como nomear arquivos de submissão”) em vez de rótulos vagos (“Requisitos”).
  • Em texto, prefira voz ativa, verbos concretos e períodos curtos.
  • Troque cadeias nominais por comandos claros: em vez de “submissões em desconformidade serão passíveis de rejeição”, escreva “vamos rejeitar manuscritos que não seguirem estas regras”.
  • Defina jargões na primeira ocorrência e limite siglas ao indispensável.
  • No design, tipografia legível, contrastes adequados, tamanhos mínimos e microespaços entre blocos ajudam a leitura; links precisam ser descritivos (“Baixe o modelo de referências”) e não “clique aqui”. Lembre que bom design não “enfeita” o texto — ele guia a atenção para a ação.

Etapa 3 — Testar: só é simples se funciona para quem lê

Texto “claro” no nosso monitor pode travar na tela de quem realmente usa.

  • Faça testes rápidos: peça a cinco pessoas do público-alvo para executarem uma tarefa usando o conteúdo e observe onde hesitam.
  • Aplique variações do teste de cinco segundos (o que se entende à primeira vista), releitura em voz alta e checklists de consistência (terminologia, ordem de passos, coerência de rótulos).
  • Meça tempo para completar tarefas e taxa de erros; ajuste e publique.
  • Releia depois de duas semanas com dados de busca interna e dúvidas frequentes do suporte para iterar.
  • Em políticas críticas — ética, dados, APC — valide com pareceristas e equipe jurídica antes de reescrever.

Onde aplicar agora no seu periódico

  • Instruções aos Autores: transforme cada requisito em um passo acionável e exemplificado; troque listas dispersas por uma sequência única, com check-out.
  • Carta de decisão editorial: diga a decisão em uma frase logo no início; depois, explique critérios e próximos passos com prazos e responsáveis.
  • Convites a pareceristas: destaque o objetivo, o escopo, o prazo e o link de aceite na primeira tela; explique conflito de interesse em uma linha, com link para detalhes.
  • Política de dados e materiais: comece com o porquê, diga o que é obrigatório e ofereça modelos de declaração e de documentação.
  • APC e isenções: informe valores, quem paga, quando e como solicitar isenção; inclua exemplos de casos aceitos.
  • Sobre o periódico e Diretrizes éticas: resuma em linguagem comum e detalhe em páginas específicas.

Exemplos de reescrita que cortam caminho

Antes: “Submissões em desconformidade com as normas estilísticas e bibliográficas poderão ser recusadas sem avaliação de mérito.”
Depois: “Vamos devolver manuscritos que não seguirem estas regras de formato. Corrija e reenvie para seguir na avaliação por pares.”


Antes: “O não atendimento às exigências de disponibilização de dados acarretará a não publicação do artigo.”
Depois: “Publicamos apenas artigos com dados acessíveis. Se os dados não estiverem disponíveis, o artigo não será publicado.”


Antes: “Os revisores deverão atentar para aspectos formais da redação, incluindo correção gramatical e estilo.”
Depois: “Ao avaliar, comente clareza, lógica do argumento e correções de linguagem que ajudam o leitor a entender.”

Um checklist mental para o dia a dia

  • A tarefa está clara no primeiro parágrafo?
  • O que é obrigatório está dito como obrigatório?
  • Há um verbo de ação em cada instrução?
  • Os termos técnicos essenciais foram definidos no primeiro uso?
  • Os títulos dizem exatamente o que a seção entrega?
  • O design facilita a leitura em telas e dispositivos diversos?
  • Fiz ao menos um teste rápido com alguém do público-alvo?

Comece pequeno, padronize rápido

Escolha uma página crítica — “Instruções aos Autores” costuma ser a melhor —, reescreva seguindo as etapas, teste, publique e meça. O que aprender aí vira padrão para cartas, e-mails, templates e páginas do site.

Crie um mini-guia editorial do periódico com exemplos bons e ruins e uma lista de decisões de estilo. Em poucas semanas, a clareza deixa de depender de quem redige e passa a ser uma propriedade do sistema editorial. É assim que linguagem simples escala em organizações e entrega valor consistente.

No fim, linguagem simples é uma escolha ética e estratégica: democratiza o acesso ao conhecimento, respeita o tempo de quem lê e torna o processo científico mais eficiente. Não é empobrecer a ciência; é abrir o caminho para que o conteúdo brilhe sem barreiras desnecessárias.


Referências

  1. Roedel, Patricia. Manual de linguagem simples : como planejar, desenvolver e testar textos que funcionam. Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2024. bd.camara.leg.br, https://www.gov.br/gestao/pt-br/acesso-a-informacao/estrategia-e-governanca/estrutura-de-governanca/Manualdelinguagemsimples_comoplanejardesenvolveretestartextosquefuncionam.pdf.

Texto produzido com auxílio de Inteligência Artificial e revisado pelo autor

Assine nossa newsletter

Nossa newsletter agora está no Substack e você pode se inscrever gratuitamente para recebê-la diretamente em seu email, ler no app e acessar todo o conteúdo do ecossistema Peletron!

Assinar gratuitamente


Compartilhe!


Escândalos de integridade científica colocam reputação da revista Nature sob pressão na China

Uma série de denúncias envolvendo artigos científicos publicados em periódicos do grupo Nature está alimentando um intenso debate sobre integridade acadêmica na China. O tema ganhou força após pesquisadores independentes...

Tempo de leitura: 1 - 2 minutos