Toda revisão sistemática nasce de uma promessa: a de reunir, avaliar e sintetizar as evidências disponíveis sobre uma questão científica de forma transparente e reproduzível. O problema é que, durante anos, essa promessa esbarrou em um obstáculo recorrente — o relato incompleto. Leitores, revisores e editores recebiam estudos que omitiam critérios de busca, deixavam de descrever como os artigos foram selecionados ou simplesmente não explicavam por que a revisão havia sido conduzida. Sem esses elementos, é impossível julgar a confiabilidade dos resultados ou tentar reproduzi-los. É exatamente esse vazio que as Diretrizes PRISMA vêm preencher.

PRISMA é a sigla de Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses (Itens Preferenciais de Relato para Revisões Sistemáticas e Metanálises). Trata-se de uma diretriz internacional de relato — ou seja, um conjunto de recomendações sobre o que precisa ser informado quando se publica uma revisão sistemática. O ponto de partida está descrito de forma direta no próprio site oficial da iniciativa: a PRISMA orienta os autores sobre como relatar, de maneira completa, por que a revisão foi feita, que métodos foram usados e quais resultados foram encontrados.1

Uma diretriz de comunicação, não de qualidade

Há um equívoco comum em se pensar que a PRISMA não é instrumento para avaliar a qualidade metodológica ou o risco de viés de uma revisão. Ela não diz se um estudo é bom ou ruim — mas se ele está bem relatado. São coisas diferentes. Uma revisão pode ter sido conduzida com rigor e, ainda assim, ser comunicada de forma confusa; a PRISMA atua justamente sobre a comunicação, garantindo que o leitor tenha acesso a todas as informações necessárias para entender e confiar no que foi feito. Para a avaliação de qualidade e de viés existem outras ferramentas específicas, como AMSTAR 2 e ROBIS, que se complementam com a PRISMA, mas não se confundem com ela.

De 2009 a 2020: a evolução da diretriz

A primeira versão da PRISMA foi publicada em 2009, sucedendo a antiga declaração QUOROM, dos anos 1990, e tornou-se rapidamente uma referência adotada por milhares de periódicos. Mais de uma década depois, os métodos de síntese de evidências haviam avançado — novas formas de busca, de avaliação de viés e de apresentação de resultados exigiam atualização. Surge então a PRISMA 2020, publicada no BMJ e hoje a versão de referência2. A PRISMA 2020 é composta por um documento principal (o statement paper), uma lista de verificação de 27 itens com seus subitens, uma lista específica para resumos, um documento de explicação e elaboração — que traz exemplos de bom relato — e os modelos de fluxograma.

O que compõe a PRISMA na prática

Para o editor e o autor, a diretriz se traduz em dois instrumentos centrais, que costumam ser solicitados na submissão de revisões sistemáticas:

  1. Lista de verificação (checklist): reúne os 27 itens da PRISMA 2020 estão organizados em seções que acompanham a estrutura natural de um artigo — título, resumo, introdução, métodos, resultados, discussão e informações adicionais. Cada item indica um elemento que deve constar no texto, da estratégia de busca completa aos critérios de elegibilidade, passando pelas fontes de financiamento e pelos conflitos de interesse.
  2. Fluxograma (flow diagram): é o diagrama que documenta, etapa por etapa, o caminho dos estudos ao longo da revisão: quantos registros foram identificados, quantos foram removidos como duplicatas, quantos foram triados, quantos excluídos e por quê, e quantos finalmente compuseram a síntese. Esse fluxo visual tornou-se um dos elementos mais reconhecíveis de qualquer revisão sistemática moderna.

Os 27 itens da lista de verificação PRISMA 2020

A seguir, os 27 itens da PRISMA 2020 com uma descrição breve de cada um, organizados pelas sete seções do checklist. Vários itens possuem subitens no documento oficial (por exemplo, o item de métodos de síntese se desdobra em seis recomendações); aqui eles aparecem de forma resumida. A redação completa e os subitens estão disponíveis na lista de verificação oficial.

Título

  1. Título — Identificar o trabalho como uma revisão sistemática.

Resumo

  1. Resumo — Elaborar um resumo estruturado, seguindo a lista de verificação PRISMA específica para resumos.

Introdução

  1. Justificativa — Descrever a justificativa da revisão no contexto do conhecimento já existente.
  2. Objetivos — Apresentar uma declaração explícita dos objetivos ou das perguntas que a revisão pretende responder.

Métodos

  1. Critérios de elegibilidade — Especificar os critérios de inclusão e exclusão e como os estudos foram agrupados para as sínteses.
  2. Fontes de informação — Especificar todas as bases de dados, registros, sites e demais fontes consultadas, com a data da última busca em cada uma.
  3. Estratégia de busca — Apresentar as estratégias de busca completas para todas as fontes, incluindo filtros e limites utilizados.
  4. Processo de seleção — Descrever os métodos para decidir se um estudo atendeu aos critérios, quantos revisores triaram cada registro, se trabalharam de forma independente e eventuais ferramentas de automação.
  5. Processo de coleta de dados — Descrever como os dados foram extraídos dos relatos, quantos revisores participaram, se atuaram de forma independente e como se confirmaram dados junto aos autores, se aplicável.
  6. Itens de dados — Listar e definir todos os desfechos buscados e as demais variáveis coletadas (características de participantes, intervenções, financiamento), explicitando suposições sobre dados ausentes.
  7. Avaliação do risco de viés dos estudos — Especificar os métodos e ferramentas usados para avaliar o risco de viés em cada estudo incluído e quantos revisores fizeram a avaliação.
  8. Medidas de efeito — Especificar, para cada desfecho, as medidas de efeito utilizadas (ex.: razão de risco, diferença de médias) na síntese ou apresentação.
  9. Métodos de síntese — Descrever como os estudos foram agrupados, o preparo dos dados, a forma de exibição, o modelo de metanálise, a avaliação de heterogeneidade e as análises de subgrupo e de sensibilidade.
  10. Avaliação de viés de relato — Descrever os métodos usados para avaliar o risco de viés decorrente de resultados ausentes na síntese (viés de relato).
  11. Avaliação da certeza da evidência — Descrever os métodos para avaliar a certeza (ou confiança) no conjunto de evidências de cada desfecho.

Resultados

  1. Seleção dos estudos — Descrever os resultados da busca e da seleção, do número de registros identificados aos estudos incluídos, idealmente com um fluxograma, e justificar exclusões aparentemente elegíveis.
  2. Características dos estudos — Citar cada estudo incluído e apresentar suas características.
  3. Risco de viés nos estudos — Apresentar as avaliações de risco de viés de cada estudo incluído.
  4. Resultados dos estudos individuais — Apresentar, para cada estudo e desfecho, as estatísticas-resumo de cada grupo e a estimativa de efeito com sua precisão, idealmente em tabelas ou gráficos.
  5. Resultados das sínteses — Resumir as características e o risco de viés dos estudos contribuintes e apresentar todas as sínteses estatísticas, com estimativa-resumo, precisão, heterogeneidade e análises de sensibilidade.
  6. Vieses de relato — Apresentar as avaliações de risco de viés por resultados ausentes em cada síntese avaliada.
  7. Certeza da evidência — Apresentar as avaliações de certeza (ou confiança) no conjunto de evidências de cada desfecho.

Discussão

  1. Discussão — Interpretar os resultados no contexto de outras evidências e discutir as limitações das evidências, dos processos da revisão e as implicações para prática, política e pesquisa futura.

Outras informações

  1. Registro e protocolo — Informar o registro da revisão (nome do registro e número) ou declarar que não foi registrada, indicar onde acessar o protocolo e explicar eventuais alterações.
  2. Apoio — Descrever as fontes de apoio financeiro e não financeiro e o papel dos financiadores na revisão.
  3. Conflitos de interesse — Declarar quaisquer conflitos de interesse dos autores da revisão.
  4. Disponibilidade de dados, código e outros materiais — Informar quais materiais estão publicamente disponíveis e onde encontrá-los: formulários de coleta, dados extraídos, dados das análises e código analítico.

Extensões oficiais para diferentes tipos de síntese

A PRISMA 2020 foi pensada para revisões sistemáticas que avaliam os efeitos de intervenções. Como nem toda revisão se encaixa nesse molde, a iniciativa desenvolveu uma série de extensões oficiais, que adaptam as recomendações a diferentes tipos de síntese. Entre as mais conhecidas estão a PRISMA-P, para protocolos de revisão; a PRISMA-ScR, para revisões de escopo (scoping reviews); a PRISMA-DTA, para estudos de acurácia diagnóstica; a PRISMA-NMA, para metanálises em rede; a PRISMA para Resumos; e a PRISMA-S, voltada ao relato detalhado das buscas. Há ainda extensões para equidade, danos, dados individuais de participantes e revisões sistemáticas vivas, além de novas versões em desenvolvimento — inclusive uma atualização parcial para incorporar orientações sobre o uso de ferramentas de inteligência artificial no processo de revisão.

Por que isso importa para a sua revista

Para editores de periódicos científicos, adotar a PRISMA não é uma formalidade: é infraestrutura de qualidade. Quando uma revista exige a lista de verificação preenchida e o fluxograma na submissão, ela eleva o piso de transparência de tudo o que publica, facilita o trabalho dos revisores — que passam a saber exatamente o que procurar — e protege a própria reputação contra revisões mal documentadas. A diretriz é mantida sob a chancela da rede EQUATOR, dedicada à melhoria do relato em pesquisa, e é endossada por centenas de periódicos no mundo todo, com traduções oficiais em diversos idiomas, incluindo o português.

No cenário brasileiro, em que revisões sistemáticas crescem em volume e em peso nas decisões de política pública e de prática clínica, incorporar a PRISMA ao fluxo editorial é um passo concreto na direção da Ciência Aberta e da reprodutibilidade. Mais do que uma exigência a cumprir, a diretriz é um contrato de clareza entre quem pesquisa, quem revisa e quem lê — e é nesse contrato que se sustenta a confiança no conhecimento que publicamos. Para conhecer os documentos na fonte, vale visitar o site oficial da PRISMA, onde estão disponíveis as listas de verificação, os modelos de fluxograma e os artigos de referência.

Referências

  1. Page MJ, McKenzie JE, Bossuyt PM, et al. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ. 2021;372:n71.
  2. Page MJ, Moher D, Bossuyt PM, et al. PRISMA 2020 explanation and elaboration: updated guidance and exemplars for reporting systematic reviews. BMJ. 2021;372:n160.
  3. Moher D, Liberati A, Tetzlaff J, Altman DG; PRISMA Group. Preferred reporting items for systematic reviews and meta-analyses: the PRISMA statement. PLoS Med. 2009;6(7):e1000097.
  4. PRISMA statement. Página oficial. Disponível em: https://www.prisma-statement.org/. Acesso em: 8 jun. 2026.

[1]Page MJ, McKenzie JE, Bossuyt PM, et al. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ. 2021;372:n71. doi:10.1136/bmj.n71.

 

 

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