Após dois anos consecutivos de declínio, a ciência brasileira voltou a apresentar números positivos. Um levantamento realizado pela Agência Bori em parceria com a Elsevier revela que o número de artigos científicos com autores vinculados a instituições do Brasil cresceu 4,5% em 2024, comparado ao ano anterior. O dado faz parte do relatório "2024: retomada no crescimento da produção científica no Brasil e em outros 51 países", divulgado em dezembro de 2025.
Ao todo, foram publicados 73.220 artigos científicos no período, revertendo a tendência de queda observada em 2022 e 2023. Apesar do resultado favorável, o volume ainda não foi suficiente para recuperar o patamar recorde de 2021, quando o país atingiu a marca de 82.440 publicações. Com esse desempenho, o Brasil manteve-se na 14ª posição no ranking mundial de produção científica.
Recuperação nacional e global
O cenário positivo se reflete nas instituições de ensino e pesquisa. Das 32 instituições brasileiras que publicaram mais de mil artigos em 2024, apenas três registraram variação negativa, uma mudança drástica em relação a 2023, quando apenas duas haviam crescido. Dentre as que mais produziram, destacam-se as universidades federais de Pelotas (UFPel) e Santa Catarina (UFSC), com crescimentos superiores a 10%.

A retomada brasileira acompanha um movimento global pós-pandemia. Entre os 54 países analisados (todos com mais de 10 mil artigos anuais), o crescimento foi generalizado. As únicas exceções foram a Rússia (-6,3%) e a Ucrânia (-0,6%), que continuam a sofrer impactos negativos em sua produção científica.
Entre as áreas do conhecimento, o destaque no Brasil ficou para "Engenharias e Tecnologias", que cresceu 7,1%, seguida pelas "Ciências Agrárias" (6,6%). Ciências Médicas apresentaram expansão modesta de 2% e Humanidades foi a única área com decréscimo de -1,1%.
Essa variedade de trajetórias reflete pressões econômicas diferenciadas em cada campo: áreas com aplicações práticas e potencial de inovação tecnológica aproveitam melhor os recursos disponíveis, enquanto humanidades enfrentam compressão orçamentária típica de períodos de austeridade fiscal.
Países em desenvolvimento como Indonésia, Iraque e Emirados Árabes Unidos apresentaram crescimentos extraordinários, superiores a 15% em um único ano. Essa disparidade revela um cenário global em que nações de renda média estão acelerando seus investimentos em pesquisa como estratégia de desenvolvimento econômico.
Reação de universidades e gargalo de pesquisadores
Um dos sinais mais otimistas veio das 32 principais instituições brasileiras de ensino superior e pesquisa. Em 2024, apenas 3 delas registraram variação negativ, uma mudança drástica em relação a 2023, quando apenas duas instituições apresentavam crescimento. Universidades como São Paulo (USP), Estadual de Campinas (Unicamp) e Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) lideraram a expansão, reafirmando a capacidade de recuperação quando há estabilidade relativa de recursos.
Por trás dos números de artigos existe um fator crítico frequentemente negligenciado: o número absoluto de pesquisadores ativos. Medido pela quantidade de autores em artigos científicos, esse indicador pode ser mais representativo que estimativas administrativas de recursos humanos em pesquisa.
Em 2004, o Brasil tinha 205 autores por milhão de habitantes. Duas décadas depois, em 2024, esse número cresceu para 932, um aumento de 4,5 vezes. Porém, essa métrica esconde uma deterioração relativa: China multiplicou por 12 esse indicador no mesmo período, passando de 138 para 1.709 autores por milhão de habitantes. Irã, Malásia e Vietnã também ultrapassaram o Brasil nesses dois decênios.
A Presidente da Capes, Denise Pires de Carvalho, apontou recentemente na Reunião Anual da SBPC que a recuperação no número de artigos publicados correlaciona-se com a retomada de formação de doutores e mestres no país, sugerindo que políticas de pós-graduação podem estar começando a produzir efeitos positivos.
Brasil estaciona com crescimento moderado
Mantendo a 14ª posição global em volume de publicações científicas, o Brasil enfrenta um desafio de ritmo. Com Taxa de Crescimento Anual Composta (TCAC) de 3,4% ao ano entre 2014 e 2024, o país ocupa apenas a 39ª posição entre os 54 países analisados em taxa de crescimento. Nações como Iraque, Indonésia e Etiópia apresentam TCACs superiores a 20% no mesmo período, sinalizando uma reconfiguração do mapa científico global.
Essa desaceleração é ainda mais preocupante quando observado em perspectiva histórica: entre 1996 e 2013, o Brasil mantinha TCACs superiores a 13% ao ano. Após 2013, esse indicador entrou em trajetória descendente, chegando a apenas 4,8% no decênio que se encerrou em 2024, uma queda substancial que revela esgotamento de dinâmicas anteriores de expansão.
Um diagnóstico estrutural
O relatório Bori-Elsevier identifica um diagnóstico preocupante: a queda na Taxa de Crescimento Anual Composta de pesquisadores iniciou-se em 2013, antes da pandemia. Aproximadamente dois-terços dessa queda acumulada ocorreram entre 2014 e 2019, sugerindo que fatores estruturais, e não apenas conjunturais, estão em jogo.
Para especialistas, essa trajetória reflete compressão orçamentária na pós-graduação, dificuldades em reter pesquisadores em carreira e falta de oportunidades para novos doutores se estabelecerem como pesquisadores independentes. Países com sistemas de ciência consolidados mantêm TCACs abaixo de 5%, porém sua base de pesquisadores per capita é entre três e quatro vezes maior que a do Brasil.
A recuperação de 2024 é um alívio, mas insuficiente. O Brasil permanece em posição de sistema científico em construção, usando a terminologia do relatório, e ainda "não está à altura do tamanho do Brasil". Competir globalmente exigirá não apenas manter crescimento positivo em volume de artigos, mas acelerar a formação e retenção de pesquisadores.
Outros países em desenvolvimento aplicam estratégias como atração de pós-doutores estrangeiros, melhoria das condições de trabalho e ambiente institucional, além de criação de novas instituições de pesquisa especializadas. O Brasil, com sua retomada 2024, possui uma janela de oportunidade para implementar essas transformações estruturais antes que outras nações consolidem posições competitivas irreversíveis no cenário científico internacional.
Fonte: Bori-Elsevier
Texto produzido com auxílio de Inteligência Artificial e revisado pelo autor.
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